Um ano antes das eleições municipais de 2024, o PSOL apontou na noite desta terça-feira, em convenção municipal, a pré-candidatura do deputado federal Tarcísio Motta à prefeitura do Rio. A antecedência do lançamento marca uma tentativa de rachar o apoio de partidos de esquerda ao prefeito Eduardo Paes (PSD), num momento em que o postulante à reeleição faz acenos a antigos rivais mais ligados à direita, como o ex-prefeito e deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos).
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Tarcísio, que disputou a indicação interna com a deputada estadual Renata Souza e o deputado federal Glauber Braga, tem buscado lideranças de partidos como PT, PSB e PDT, hoje na base de Paes, para estimular dissidências.
Embora as três siglas tenham embarcado no secretariado de Paes neste ano, um dos argumentos da candidatura psolista é que a preferência do prefeito pelo correligionário Pedro Paulo (PSD) como vice sinalizaria, na prática, falta de espaço para a esquerda. Segundo interlocutores, Paes articula por Pedro Paulo para ter um aliado de estrita confiança na chapa, de olho na possibilidade de renunciar à prefeitura em 2026, caso reeleito, para disputar o governo do estado.
O atual prefeito tenta montar uma aliança para além da esquerda carioca, e já incluiu no secretariado partidos como o União Brasil, na pasta de Habitação, e Podemos, com o recém-nomeado secretário de Integração Metropolitana, Marcos Dias, irmão do ex-presidenciável Pastor Everaldo (PSC).
– A atual gestão de Paes está tentando resolver problemas que ele mesmo criou, como o colapso do BRT. Ele tenta uma frente tão ampla não para marcar posição contra o fascismo ou o bolsonarismo, mas sim porque quer ser governador a qualquer custo, e por isso está articulando aliança até com Crivella. A minha candidatura entende que, no Rio, cabe à esquerda propor uma mudança real – afirmou Tarcísio.
O Republicanos, partido de Crivella, negocia um embarque no primeiro escalão da prefeitura do Rio, que deve ocorrer na secretaria municipal de Ação Comunitária. A indicação, conforme O GLOBO apurou, deve contemplar a família do ex-deputado e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), Domingos Brazão, que está levando seu grupo político para a sigla. O filho de Domingos, Kaio Brazão, pode concorrer a vereador na capital fluminense em 2024, e a secretaria é vista como forma de turbinar a candidatura.
Em outro aceno direto a Crivella, Paes se posicionou no último mês, em reunião com vereadores do Republicanos e representantes da Igreja Universal, contra uma possível inelegibilidade do ex-prefeito, que é bispo licenciado da igreja. Em agosto, a Câmara do Rio liberou para votação um parecer que desaprova as contas da gestão Crivella de 2019, o que pode torná-lo inelegível por oito anos. Na reunião, Paes se disse contra “afastar da vida pública” o antigo adversário, e avaliou que os problemas nas contas do antecessor se explicam pela “complexidade” da gestão.
Segundo Tarcísio, a validação de sua candidatura no PSOL abre terreno para a tentativa de aglutinar lideranças e militantes de siglas de esquerda, a começar por nomes insatisfeitos com a aliança com Paes. Apesar de o atual prefeito ter costurado o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à sua reeleição, um dos focos do PSOL é o PT, que abriu mão de candidatura em São Paulo para apoiar o psolista Guilherme Boulos.
O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) é a principal liderança petista que vem declarando apoio a Tarcísio. Já o deputado federal Washington Quaquá e o ex-deputado André Ceciliano, hoje secretário de Assuntos Federativos no governo Lula, defendem a aliança do PT com Paes, mas travam uma disputa nos bastidores pela composição da chapa.
A cúpula partidária pressiona o prefeito para aceitar uma indicação do PT como vice. Paes, por sua vez, abriu espaço ao partido em três secretarias – Assistência Social, Economia Solidária e Meio Ambiente – visando esvaziar cobranças futuras.
Nos casos de PSB e PDT, há insatisfações internas com a forma como as siglas entraram na gestão municipal. O PSB emplacou a secretária municipal de Ciência e Tecnologia, Tatiana Roque, numa costura entre Paes e o deputado federal Bandeira de Mello. O movimento não foi acertado com o ex-deputado Alessandro Molon, presidente estadual do partido. Bandeira e Molon disputam hoje influência no PSB no estado.
Já o PDT entrou no primeiro escalão de Paes com o secretário municipal de Trabalho, Everton Gomes, indicado pelo presidente nacional do partido – e ministro do Trabalho –, Carlos Lupi. Internamente, porém, há a avaliação de que a pasta está esvaziada, e de que Paes fez acordos políticos desfavoráveis a pedetistas.
Lideranças do PDT no estado defendem a candidatura da deputada estadual Martha Rocha (PDT) à prefeitura. Em um cálculo similar ao do PSOL, o objetivo dos pedetistas é aproveitar a fragmentação do bolsonarismo na capital fluminense e buscar uma disputa de segundo turno contra Paes.
Um pedetista influente ouvido pelo GLOBO afirma que há conversas também para uma eventual aliança com Tarcísio, embora não seja a prioridade do PDT.
A indicação de Tarcísio pelo PSOL para concorrer à prefeitura do Rio foi aprovada com 64% dos votos de delegados eleitos, em plenárias municipais, para participar da convenção do partido. Além de partidos de esquerda que hoje integram a base de Paes, o PSOL também pretende abrir diálogo com PCdoB e PV, hoje federados ao PT, e com PCB e Unidade Popular (UP).
Como tem uma federação com a Rede, o PSOL também apresentará a candidatura de Tarcísio para apreciação da sigla, hoje dirigida pela ex-deputada Heloísa Helena.
