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Aldenor Prateiro: Se tudo mudar, “não é estranho que eu mude”

Aldenor Prateiro. Foto: Elisa Elsie

Natural de Mossoró, Aldenor Gomes da Silva, ou melhor, Aldenor Prateiro, nome que adotou desde 2015, teve uma infância comum como a maioria dos nordestinos do interior de sua geração. Filho de uma família pobre de 14 filhos, seu pai era ferroviário. Apesar de uma vida árdua, que viu a fome de perto e vivenciou situações que lhe marcaram, o fato de ter sido o 12º filho acabou o favorecendo pois, o menino teve acesso à escola mais cedo, não precisando se inserir no mercado de trabalho precocemente, diferente da realidade dos outros irmãos homens. Prateiro, frequentou a Escola Pública na primeira infância (9 aos 15 anos), dado que naquele período apenas por essa idade se tinha acesso à escola.

O interesse pelos estudos favoreceu sua ida a um convento da Igreja Católica, o Seminário Sta Terezinha, em Mossoró, onde cursou todo o ensino médio. No final dos anos 1960, após desistir da vida eclesial, pós-adolescência, ingressou no Curso de Agronomia. Posteriormente, dedicou-se à vida acadêmica como docente e permaneceu por cerca de 40 anos. Com um currículo vasto, o professor é pós-doutor em Ciências Sociais, com doutorado pela Unicamp em Economia Agrícola, ex-coordenador de departamento do curso na UFRN e ex-coordenador do programa Fome Zero no Nordeste.

Após 66 anos, Aldenor se descobriu artista, como, segundo ele, sendo uma estratégia que utilizou ao decidir se aposentar da academia. Quando completou 4 décadas de carreira em pesquisa, docência, militância sobre os Estudos Rurais, com ênfase na composição e dinâmica dos atores rurais, decidiu dar um novo rumo aos problemas sociais com que esteve sempre envolvido. Inicialmente, utilizou de uma habilidade que havia adquirido na juventude, o fácil manuseio com metais e ferramentas.

Com esse passaporte, frequentou um Curso de Elaboração de Peças em Prata, cujo interesse era apropriar-se da técnica em manuseio desse metal precioso. O artista disse que sua meta real era a fabricação de peças que tivesse alguma relação com a temática rural. Inquieto com o que conseguia fabricar e diante da fácil aceitação pelos seus amigos, que tinham acessos às suas criações, começou a explorar sua arte na definição de temas poéticos mais ousados.

“Primeiro debrucei-me sobre a história e poesia de Manoel de Barros, o poeta mato-grossense das coisas insignificantes como ele se definia, e comecei a descobrir que meu novo status de cidadão tinha um outro que fazer. Introspectivo, comecei a buscar no meu passado de criança, adolescente, jovem e adulto coisas que se me definiram e me moldaram e que permaneciam aprisionadas em baús escondidos, num quintal qualquer, como que nem em Manoel de Barros.”, diz o artista com palavras emocionadas.

CAUSAS SOCIAIS

Aldenor se considera um estudioso do rural, que traz consigo as histórias contadas por familiares, amigos, alunos e, principalmente, a partir dos “causos” relatados e vividos no convívio com agricultores sertanejos do semiárido nordestino, nas suas andanças pelas quebradas do Sertão. Com o novo ofício de artista visual, livre das amarras da academia, rompeu com a exclusividade da escrita e resolveu adicionar uma outra linguagem, mas trabalhando o mesmo tema.

“Sempre fui encantado com a vida do campo. Mas, contraditoriamente, os mesmos motivos que levaram ao meu encantamento desencadearam os desencantamentos de hoje. A crueldade da vida dos que moram no campo, que eu pensava que ajudaria a debelar, frente à persistência de uma realidade de miséria das pessoas que teima em permanecer nesse espaço, anuvia toda uma trajetória de 40 anos de estudos, pesquisa, docência e militância, diante da permanência dessa chaga nacional que como uma tatuagem “que você pega, esfrega, nega, mas não lava”, como diz o poeta.”, reflete.

Depois daquela fase cuja maior inspiração eram os poemas de Manoel de Barros e já bem enveredado pela Arte Contemporânea, afloraram questões que, racionalmente, o artista pode agrupá-las em dois grandes eixos Escravidão/Racismo e Machismo a partir de perspectivas pós-coloniais e decoloniais. Hoje a prática artística de Prateiro é pesquisar, desvendar, denunciar e intervir nessas duas grandes temáticas, que foram gestadas em reminiscências históricas de cunho familiares, religiosas e políticas afunilando-se na busca de entender a persistência da escravidão/racismo enquanto prática social e econômica contra uma população afrodescendente. Assim como, nesse mesmo sentido, procura também destacar o lugar especial da cultura patriarcal que ao mesmo tempo tenta camuflar seu caráter simbólico de violência e enaltecimento da supremacia branca.

“Entendo o colonialismo como um sistema multifacetado, para além de uma simples exploração estrangeira da mão-de-obra e dos recursos naturais de um dado território. Como ilustrado pelo filósofo africano Franz Fanon, é a ‘negação sistematizada do outro, uma decisão obstinada de recusar ao outro qualquer atributo de humanidade.’”, diz.

NATAL E O ACESSO À ARTE AFRO

Para Prateiro, a realidade do circuito artístico de Natal em nada se diferencia da realidade artística nacional. Ainda é uma categoria marginalizada, pouco reconhecida enquanto atividade produtiva, e que carece de fomentos e incentivos condizentes com a atividade que desenvolvem. As deficiências são potencializadas quando a ela são agregadas as discriminações inerentes às questões de caráter regionais. Em geral, disponibilizam poucos recursos além de serem mal administrados. As questões de discriminação de raça, materializada no racismo, é mais um fator que fragiliza a participação e valorização dos segmentos afros ou racializados. Esta temática é um dos pontos centrais de sua poética artística.

Recentemente, Aldenor Prateiro realizou sua primeira exposição individual aos 76 anos intitulada “Nem Tudo Que Reluz é Ouro”, reunindo 31 peças feitas à mão na Galeria Conviv’art do Núcleo de Arte e Cultura da UFRN. Obras como o “Pé de Pau” e a “A Viugem” aplica elementos da cultura popular e do artesanato para produzir arte contemporânea contestadora e decolonial. Na entrevista, o artista traz, como uma espécie de tradução de sua “migração” para a arte, um trecho de uma canção da cantora argentina, Mercedes Sosa, chamada Todo Cambia (Tudo Muda).

“Si todo cambia ‘que yo cambie no es extraño’” (Tradução: Se tudo mudar, “não é estranho que eu mude”).

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