Por uma década e meia, Marcelo construiu a carreira mais vitoriosa de um jogador do Real Madrid, com 28 títulos no total. Na capital da Espanha, o lateral-esquerdo é uma das lendas do maior clube do mundo. Mas nem as inúmeras taças, o castelhano fluente ou mesmo a cidadania espanhola conseguiram apagar o que ele de fato é: um carioca da gema, cria de Xerém, que se prepara para disputar a maior final da história do seu clube do coração, o Fluminense, no quintal de casa.
Tanto tempo longe da beleza e do caos da Cidade Maravilhosa não foi capaz de abalar a relação de Marcelo com suas origens, nem de apagar as características tão próprias dos meninos do Rio. A marra zombeteira se fez presente em campos pelo mundo e continua lá em despretensiosas peladas no Aterro do Flamengo.
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A aluna de museologia da Unirio Jennyffer Augusto conferiu de perto o jeitinho carioca de Marcelo. Há duas semanas, o time de futsal da faculdade treinava numa das quadras do Aterro. Era fim de tarde quando avistaram o lateral, sua cadela Lola e o filho mais novo, Liam, em um costumeiro passeio pelo parque do Flamengo após o treino do tricolor, na Barra da Tijuca.
O menino de 8 anos, que treina com o time de futsal sub-8 do Fluminense, pediu para jogar. Minutos depois, o pai também estava em quadra. Segundo a estudante, mais recuado e se resguardando — dois dias depois, o Fluminense enfrentou o Corinthians num empate em 3 a 3 com participações decisivas do lateral.
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— Em algum momento, nós falamos que seria cobrança em dois toques. Meu amigo disse: “Você colocou a mão na bola e não é goleiro”. E ele brincou: “Eu tenho 34 anos, nasci aqui, moro aqui há não sei quantos anos e nunca teve isso. Agora tem isso? Vocês inventam cada coisa”. Todo mundo começou a rir — conta a tricolor Jennyffer, que afirma ter tido péssima atuação no treino devido ao nervosismo de estar ao lado do ídolo. — Até jogando brincando ele é gênio. Deu um passe que deixou o filho na cara do gol, mas ele perdeu. E disse: “Ah, Liam, não acredito!”
A familiaridade com a cidade e seus códigos permite que Marcelo circule de forma natural, ao contrário de outros jogadores que costumam se enclausurar em condomínios. Jennyffer e seus amigos não são os únicos a ter a chance de esbarrar com uma estrela do futebol. Assim como pode ser visto em peladas em vários pontos do Rio, o lateral bate ponto na praia de Ipanema, passeia pelos calçadões do Flamengo — sempre acompanhado por um segurança —, e foi visto, recentemente, no Festival do Rio.
Casado com a atriz Clarice Alves, com quem teve Liam e Enzo, de 13 anos, Marcelo também aproveita os eventos culturais cariocas longe dos holofotes. Numa sexta-feira à noite, fez um típico programa de casal e foi ao Estação Net Rio, em Botafogo. Garantiu a alegria dos funcionários e dos espectadores antes de entrar na sala para assistir ao filme belga “Insurgentes”. Entre diversos atores e atrizes que estiveram no festival, o lateral foi o mais tietado.
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— Nossa volta para o Rio foi uma superoportunidade de trazer nosso filho mais novo, Liam, para as nossas raízes. Eu e Marcelo somos da Zona Sul, então vamos aos lugares que íamos quando criança: as mesmas lanchonetes para tomar açaí, as mesmas padarias… — conta Clarice ao GLOBO. — Nosso lazer é jogar frescobol, andar de bicicleta e brincar com a nossa cachorra.
Os bairros da Zona Sul sempre foram extensões da casa de Marcelo. Nascido em Botafogo, numa família de classe média baixa, o jogador viveu seus primeiros anos no clássico Edifício Rajah, que, à época, era considerado uma espécie de favela vertical e servia como sede de uma organizada do Botafogo — o alvinegro foi o primeiro time de Marcelo. Ele batia bola numa praça próxima antes de se mudar para o Catete e, depois, para o Flamengo, onde reside hoje em um apartamento com vista para o Aterro e a praia.
Talvez, por isso, a escolha pelo bairro, apesar de ter de se deslocar mais de 30km diariamente até o CT do Flu, em Jacarepaguá, e enfrentar mais de uma hora de trânsito — ainda que conte com motorista quase sempre.
Mas Marcelo não se limita à parte mais famosa da cidade. Sua primeira chance no futsal foi no Rio Comprido, no Clube Helênico. E hoje faz questão, sempre que tem uma folga, de acompanhar o filho mais novo nos jogos do Flu, num clube no Rocha.
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