Dois anos depois de ter deixado a cadeia pela porta da frente, mesmo estando com um mandado de prisão pendente, para assumir a presidência da cúpula do conselho da maior facção criminosa do Rio, o traficante Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, foi destituído do cargo que ocupava no grupo criminoso. A Polícia Civil investiga a informação, recebida pelo setor de inteligência da corporação, dando conta de que Márcio Nepomuceno dos Santos, o Marcinho VP, apontado como chefe da facção, teria ordenado a destituição de Abelha, já substituído por Luciano Martiniano da Silva, o Pezão.
Outra informação que está sendo é investigada é a de que Paulo Cesar Souza dos Santos, o Paulinho Muleta, suspeito de comandar o tráfico em dez comunidades, incluindo o Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio, e a Vila Operária, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, teria sido executado no último sábado. Ligado a Abelha, ele teria sido morto na Rocinha, onde Abelha continua escondido. A troca na presidência do conselho do bando teria sido decidida, no fim de outubro, após decisões tomadas pela cúpula, sob forte influência de Abelha, não terem sido aprovadas por Marcinho VP. Entre elas estaria a execução de dois traficantes e a expulsão de Alexsander de Jesus Carlos, o Choque, da facção integrada por Marcinho.
Ainda não se sabe como e quando exatamente Marcinho VP, preso em um presídio federal, conseguiu saber de decisões tomadas por seu grupo criminoso. No entanto, a informação que chegou aos policiais é a de que o traficante Luiz Cláudio Machado, o Marreta, teria sido o encarregado de transmitir a decisão sobre a troca na cúpula. A ordem teria sido supostamente transmitida por ele ao grupo criminoso , em outubro, ao retornar da Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná, para cumprir pena no Rio. Com a substituição, algumas mudanças já teriam sido colocadas em prática. Uma delas é o retorno de Choque ao grupo criminoso. O bandido estava em uma unidade penitenciária de Bangu destinada a outra facção criminosa, onde buscou abrigo após sua expulsão. Com sua volta sacramentada a antiga quadrilha, ele foi transferido, no último dia 1º de novembro, para o presídio Vicente Piragibe, no Complexo de Gericinó. A unidade é onde detentos da maior facção criminosa do Rio, a mesma que integrava antes de ser expulso por Abelha, cumprem o regime de prisão semiaberto.
Outra mudança seria na administração dos negócios do tráfico na Favela de Manguinhos. Após a expulsão de Choque, Abelha escolheu Willian Souza Guedes, o Corolla , para chefiar o comércio de drogas no local. Com a destituição de Wilton Carlos Rabello Quintanilha, homens ligados a Choque já estariam reassumindo negócios ilegais na comunidade, como por exemplo, a exploração da venda de sinal clandestino de tv a cabo.
Homem de confiança de Marcinho VP e oriundo do Complexo do Alemão, de onde saiu há 13 anos, fugindo do cerco de forças de segurança, feito em 2010, para a ocupação do local, Luciano Martiniano já integrava a cúpula do grupo criminoso. Agora, no entanto, está à frente do principal cargo da quadrilha, destinado a bandidos que estão em liberdade. Pezão passou anos no Paraguai, onde atuou como matuto, na compra de drogas e de armas para a facção criminosa. Segundo investigações da Polícia Civil, Pezão conseguiu contato com traficantes internacionais e foi o responsável pelo envio de toneladas de maconha, cocaína e cigarros contrabandeados, além de fuzis, pistolas e munição, para comunidades do Rio controladas por seu grupo criminoso. No início de 2022, ele recebeu ordem da quadrilha que integra para voltar ao Rio de Janeiro e reassumir o tráfico do Alemão. A notícia da volta de Pezão ao Rio foi divulgada com exclusividade pelo Jornal Extra, em dezembro de 2022.
A destituição também diminuiu drasticamente o poder antes exercido por Abelha. Ele perdeu, por exemplo, o direito a administrar a caixinha da facção, que movimenta mensalmente, segundo estimativa da polícia, algo em torno de R$ 3 milhões mensais. A quantia é resultado da remessa de parte do lucro obtido em favelas com o tráfico de drogas e outras atividades criminosas. Geralmente é usado para pagar resgates de integrantes do primeiro, segundo e do terceiro escalão da quadrilha quando são detidos e liberados por maus policiais, após o pagamento de propina. A verba também seria usada na compra de drogas, armas e munição, vindas do exterior. Uma espécie de auditoria teria sido feita pela cúpula. Como não foram encontradas provas de desvio de dinheiro, o grupo criminoso optou por não matar Abelha. A informação recebida por policiais que investigam o bandido é de que, atualmente, Abelha seria dono apenas do tráfico do asfalto na Lapa, no Centro do Rio.
Procurada, a defesa de Márcio dos Santos Nepomuceno disse que é impossível o traficante ter dado qualquer ordem neste sentido, já que toda comunicação é controlada e gravada na penitenciária federal.
—Ele está absolutamente incomunicável na penitenciária federal. Ele não tem possibilidade de comunicação. Qualquer coisa que ele fale fica mediante monitoramento. Os advogados e familiares são inclusive gravados A visita é uma vez por semana. Ele não tem como nadar nenhum tipo de ordem se a direção da penitenciária ter conhecimento. É impossível que determine qualquer coisa. Tudo é gravado e monitorado. O Márcio já foi absolvido 17 processos, mas toda hora inventam um processo e imputam alguma coisa para no final ele ser absolvido. isso acaba postergando o direito de liberdade dele. Ele está preso há 27 anos e já deveria ter sido solto há muito tempo na condicional— disse a advogada Flávia Froés, uma das responsáveis pela defesa de Marcinho VP.