Santa Teresinha volta à capela do Palácio Guanabara

Matheus Oliveira Nogueira restaurando o medalheiro — Foto: Custodio Coimbra

Será como um presente de Natal antecipado. Após um minucioso serviço de restauração, a imagem de Santa Teresinha deixou ontem o ateliê do estado, onde permaneceu durante cinco meses, para voltar a ocupar o lugar de destaque no altar da capela do Palácio Guanabara. Mas a comemoração do retorno da estátua à igreja ficará esta terça-feira, a partir das 17h, durante missa de fim de ano celebrada pelo cardeal dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, e com a presença do governador Cláudio Castro.

Sob os cuidados de oito servidores públicos, estão os acervos dos palácios Laranjeiras, com nada menos do que 720 peças, e Guanabara, com 230. E é em meio à vegetação e à calmaria, numa casa com quatro salas, no terreno do Laranjeiras, que o pequeno grupo recupera o patrimônio histórico que se deteriora.

— Trabalhamos desde a conservação preventiva até a restauração. Tem muita pesquisa envolvida. Buscamos imagens, autor… E cada uma das peças precisa de um estudo direcionado para saber a técnica adequada a ser utilizada. Não é algo mecânico. As peças precisam voltar à vida da forma correta — explica a museóloga Luiza de Andrade Figueira Rache, que coordena a equipe, e adotou um hábito: — Vivo vagando por sites de museus mundo afora para encontrar referências.

Recuperar Santa Teresinha, de 1946, não foi tarefa simples e exigiu superar desafios. A primeira providência foi combater o cupim da imagem, esculpida em madeira por Joaquim de Souza. Em seguida, a obra, que tem um metro de altura e 50 centímetros entre os dois braços, foi higienizada.

— Tentamos usar EDTA (ácido etilenodiamino tetra-acético, um composto orgânico), que não deu certo. Depois, aplicamos pó de borracha e conseguimos fazer a higienização — lembra a restauradora Mariana Giacomelli, formada em conservação e restauro pela Escola de Belas Artes, da UFRJ.

Um grande desafio foi preencher as partes ocas da santa, diz ela:

— Havia muitas galerias de cupim. Utilizamos resina com vermiculita (um mineral). Batemos no liquidificador e preenchemos as galerias.

O processo de restauração da obra incluiu também recolocação de cristais no manto de Nossa Senhora, renovação de detalhes originais, como as características faciais, e o retoque na pintura, conforme o original de Antônio dos Santos Oliveira. O trabalho é complementado com verniz.

— A imagem estava muito opaca e com vários buracos — recorda Mariana.

A capela do Palácio Guanabara foi construída para uso particular de Carmela Leme Dutra, devota de Santa Teresinha, esposa do ex-presidente da República Eurico Gaspar Dutra (1946/1950), que residiu no palácio durante sua administração.

Além de Luiza e Mariana, integram a equipe os restauradores Raquel Pontes, Priscila Wood e Alessandro Araújo de Souza, e os auxiliares Carlos Eduardo de Santana Leite, Mateus Oliveira Nogueira e Jair Santana Gomes.

Os quadros estão entre os casos excepcionais em que o trabalho de restauração não é feito pelo grupo de funcionários. Quem providencia são os museus, que têm a sua curadoria. Ao circular pelo palacete, o visitante se depara, por exemplo, com duas pinturas de Frans J. Post (século XVII); cinco Nicolas-Antoine Taunay (século XIX); o “Retrato de Luis XIV”, pintura atribuída a Hyacinthe Rigaud; e o “Retrato de nobre veneziana”, de Moretto da Brescia, pintor italiano do Renascimento (século XVI) .

Os vitrais artísticos também necessitam de cuidados de outros profissionais. No Palácio das Laranjeiras, há alguns na torre do belvedere, nos corredores da sala íntima e no banheiro da sala de almoço. O maior é o da escadaria do hall principal do palácio, com 6,80 metros de altura por três metros de largura, criado pelo atelier de Charles B. Champigneulle, um dos principais vitralistas franceses do início do século XX.

— Quando Luidi Nunes restaurou o vitral da escadaria, de propósito não mexemos num dos vidros — conta Luiza, apontando para uma rachadura. — É onde está a assinatura do autor, que quisemos preservar.

Entre as peças que estão sendo restauradas no ateliê, há um pesado medalheiro francês, que mistura casco de tartaruga e metal, do início do século XX, inspirado em modelos do Palácio de Versailles. Ele fica pronto em meados do ano que vem. Um outro exemplar já foi reformado e voltou para o hall principal do Laranjeiras. Ambos fazem parte da coleção Eduardo Guinle, empreiteiro e industrial, de família burguesa, que construiu o palácio (entre 1909 e 1913), optando pela opulência (o imóvel foi vendido para o governo federal em 1947, e cedido para o estado em 1974).

Matheus Oliveira Nogueira restaurando o medalheiro — Foto: Custodio Coimbra
Matheus Oliveira Nogueira restaurando o medalheiro — Foto: Custodio Coimbra

Seis cadeiras francesas da coleção Guinle também estão no ateliê. Chama a atenção um cisne em bronze maciço dourado, de 20 quilos, que fica em cada braço das peças, confeccionadas pela Maison Bettenfeld. Elas fazem parte de um conjunto que inclui dois sofás, dos canapés (minissofás) e outras cadeiras, com e sem braços, que ornamentam o Salão Império, no segundo pavimento do Laranjeiras.

— Encontrei peças como essas na prefeitura de Paris — recorda Luiza.

Os cuidados para recuperar os assentos desse mobiliário inclui costurar à mão. Nenhum problema para a restauradora Mariana.

— Sempre gostei de trabalhos manuais — revela ela, que está no ateliê desde 2020 e não esquece a primeira peça que recuperou: uma poltrona Bergère bege clara, com detalhes dourados.

Para assegurar que o estofado do Salão Império ficasse igual ao original, foi necessário importar o tecido — azul com estrelas douradas — da França. O que custou caro. Os 76 metros de pano saíram por R$ 57.778, mostra a nota de compra. O dinheiro, segundo a coordenadora de restauração, foi conseguido com o aluguel do Palácio das Laranjeiras para gravações.

Outras duas obras estão quase prontas para serem devolvidas ao seu local de origem. São dois consoles, com tampos de mármore, do Salão Nobre do Palácio Guanabara. Eles são revestidos por folhas de ouro de 22 quilates. A equipe ainda faz pesquisa sobre eles e não tem como precisar a época em que foram confeccionados.

Mas nem tudo pode ser restaurado na calmaria do ateliê, pelo tamanho e risco de ser danificado. É o caso de um painel de Leão Velloso, professor da Escola de Belas Artes, de 1955, que está sendo recuperado no local, o corredor de acesso ao jardim de inverno, no térreo do Palácio Guanabara. Em gesso, faz parte de um conjunto de três painéis, com representações de figuras humanas em cenas bucólicas.

— Esse painel tinha sofrido um processo de pintura inadequado, que cobriu grande parte dos volumes e nuances característicos do artista, além de ter passado por uma infestação de térmitas (cupins), que afetou a estrutura — explica Luiza.