Conversas. Foto: Ilustrativa/Reprodução.
O mês de novembro ia desaparecendo no horizonte, numa tarde de calor carregada pelos ombros claros e torneados de uma suave brisa que, em leves murmúrios, soprava aos ouvidos que dezembro estava próximo. A conversa já se estendia por três horas, entre risadas e baforadas de cigarros e charutos. Nesse tempo, as palavras trocadas entre nós percorreram milênios, séculos, anos, meses e dias. As palavras dançavam sob a brisa, no salão fértil de nossas mentes. Eu, mais ouvinte, atento, escancarei as porteiras de minha mente, para que as palavras vindas do meu interlocutor percorresse meu cérebro. Num momento específico saquei uma pergunta: o que fazemos com o nosso passado, o futuro e o presente? Num sorriso maroto e inocente, a resposta veio montada, cavalgando em letras garrafais potentes e de passos suaves: “o passado entregamos à misericórdia divina; o futuro à providência divina e o presente, ao amor”. Um silêncio embalado no sorriso tomou conta daquele ambiente entorpecido pelo cheiro de fumo e café. Uma dose de uísque e a noite foi chegando devagar, trazendo a brisa do mar. Almoço com certa frequência com uma amiga, professora de logística. E é sempre engraçado conversar com ela, porque a sua linha de raciocínio é bem estruturada e a lógica predomina. Digo que são engraçadas as nossas conversas porque a professora estrutura o seu discurso cartesiano num mundo ideal, enquanto eu a provoco para os descaminhos do mundo real. Paciência e impaciência caminham no mundo real. No mundo utópico da professora predomina a paciência. Eu, impaciente, provoco a sua paciência todas as vezes que nos encontramos. Afinal, o universo não é paciente e caminha em direção indefinida. Nossas conversas sobre o indefinido, o incerto, o que não foi limitado e delimitado, permitem pensar fora da caixa tradicional que nossa mente está habituada a conviver. Sempre aprendo algo novo com a professora de logística.
Entre um trago e outro nós quatro deixamos a conversa fluir sobre política, futebol, meio ambiente, ciência, religião, astronomia, o começo e o fim do mundo. Não havia uma sequência lógica, os assuntos iam se entremeando e, juntos e misturados, faziam uma boa salada de palavras e frases. A palavra era o tira gosto doce e salgado posto na mesa. Num determinado momento, a física quântica, com suas partículas atômicas e subatômicas, e a “teoria dos vários mundos”, que diz ser possível a existências de diversas realidades alternativas para cada individuo, centralizou a discussão. Os quatro tinham opiniões, mas o mundo quântico é indefinido e está em contínua construção, por natureza. Para encerrar o assunto “física quântica”, alguém lembrou de uma frase do Prêmio Nobel Richard Freynman, que disse: “Se você acha que entendeu a física quântica é porque você não entendeu”. No meio dessa loucura quântica, o assunto futebol e a ida do homem a lua entrou em campo, quando um dos circunstantes falou que o maior feito do homem no século passado foi o astronauta americano Neil Armstrong pisar o solo lunar e caminhar. Foi quando um santista apaixonado por Pelé sacou seu conhecimento e calou a mesa, ao dizer que o maior feito do homem não foi um americano pisar e caminhar na lua, porque o que os astronautas não fizeram com as mãos, lá em cima, o que Pelé fazia com os pés, aqui embaixo. Feliz 2024 para você, sua família e seus amigos, porque novas e velhas conversas vão chegar!