Audiência pública na Câmara para discutir a seca, por proposição do deputado federal Fernando Mineiro (PT) – Foto: Mário Agra / Câmara
Semana passada, a Câmara Federal abrigou audiência pública sobre o semiárido, solicitada pelo deputado Fernando Mineiro, intitulada “Seca, crise ambiental e social no Nordeste em 2024: Previsões, Gravidade e Respostas”.
Do ponto de vista técnico, um sucesso. Excelentes exposições e defesas e grande possibilidade de iniciar-se um processo de discussão, ainda que tardio, para mais uma seca que já nos bate às portas.
Do ponto de vista político, uma vergonha. Dos 133 deputados federais dos oito estados mais atingidos pelas secas, somente o propositor da audiência e um alagoano presentes. Nenhum senador do Polígono das Secas. Do RN, que tem 95% do território semiárido, só Mineiro e mais ninguém.
A perspectiva científica e popular é assustadora.
A palavra “emergência” dói em qualquer alma sensível, mas agem como se as secas fossem uma grande novidade. Até 2017, o Nordeste registrou 130 secas. Nas duas primeiras décadas deste século tivemos 14 anos de secas “brabas” ou de precipitações insuficientes.
Alguns dos problemas históricos já estão resolvidos. Especialmente a tecnologia. Seja para a irrigação, seja para a agropecuária xerófila. Também já se sabe tudo sobre agregação de valor aos nossos produtos. Temos crédito, canais de comercialização e vias de escoamento.
A água no RN já tem uma rede de grandes e médias barragens, adutoras, açudes e poços, que, se bem administrados podem amainar os efeitos da seca. No plano micro, as cisternas caminham para dois milhões no Nordeste.
Para barragens sempre cheias faltava o Canal do São Francisco. Para tanto o que não está pronto está sendo encaminhado. Ramal, novas barragens, programa de poços.
Desconhecemos tecnologia de Israel, Califórnia, Austrália ou donde seja, que não já se encontre por cá. Até a terra, que era e continua sendo um fator limitante aos agricultores familiares, já não é tão grave como na grande seca de 1979-1983. Pelo menos uns dois milhões de famílias possuem terras em comunidades rurais tradicionais e assentamentos de reforma agrária.
O colchão do Bolsa Família já freia invasões de feiras e supermercados.
Falta disposição política para sentarem todos à mesma mesa e buscarem viabilizar, na prática, as soluções já conhecidas e alcançáveis desde quando a Rede Globo reuniu 30 universidades e lavrou um documento intitulado “Nordestinos: O Brasil em busca de soluções”.
O Brasil é governado por um retirante das secas. O RN, por uma retirante que também dirige o Consórcio Nordeste com 9 governadores afinados.
Resta saber se a ideologia da punição e do ódio será, de novo, maior que a necessidade de matar a fome e a sede. E se vontade de derrotar governos, inclui a falta de escrúpulos de matar o povo de fome.