Editorial O Globo: Má qualidade de rodovias traz riscos para as viagens de fim de ano

Morada da paz

Má qualidade de rodovias traz riscos para as viagens de fim de ano

PESQUISA DA CNT CONSTATOU QUE MAIS DE DOIS TERÇOS DAS ESTRADAS TÊM QUALIDADE REGULAR, RUIM OU PÉSSIMA

Nos anos de desenvolvimento que sucederam à Segunda Guerra, com destaque para a gestão Juscelino Kubitschek (1956-61), o Brasil fez a opção pelo transporte rodoviário em detrimento do ferroviário. Hoje, passados 70 anos, o país deveria ter uma malha impecável de rodovias. Não é o que acontece. Até hoje o brasileiro carece de um padrão aceitável de estrada, revelou levantamento recente da Confederação Nacional do Transporte (CNT). Depois de percorridos 11.502 quilômetros, a pesquisa concluiu que 67,5% das vias pavimentadas têm qualidade regular, ruim ou péssima.

O ranking das melhores e piores rodovias expõe os desníveis conhecidos entre as regiões. E deixa claríssimo que um dos maiores equívocos de governos estaduais e do governo federal é deixar de fazer concessões à iniciativa privada para administrar estradas. Não é coincidência que as dez piores rodovias estejam distribuídas entre Norte e Nordeste (Norte com sete e Nordeste com três). A pior de todas, a AM-010, liga Manaus a Itacoatiara, no Amazonas. Também não é acaso que todas sejam públicas — oito estaduais e duas federais.

Não causa surpresa, tampouco, a relação das dez melhores rodovias. Sete, todas no Sudeste, são estradas com pedágio, gerenciadas por concessionárias, e apenas três são públicas. Duas são estaduais, no interior de São Paulo, o estado mais rico da Federação. Apenas uma, federal, está em Goiás, um dos polos de produção de grãos. A primeira do ranking, a RJ-124, no Rio de Janeiro, conecta Rio Bonito a São Pedro da Aldeia, com pedágio.

A radiografia tem como pano de fundo a péssima qualidade da gestão no setor público. É perniciosa a influência política nas nomeações, e a crise fiscal que acompanha o Estado brasileiro há tempos restringe os recursos necessários aos investimentos em manutenção. Mesmo unidades da Federação com grande receita tributária passam por dificuldades. Salvo um recapeamento de asfalto prometido por um candidato em campanha, não há como os estados e a União darem conta da malha rodoviária. A expansão do agronegócio tem pressionado a infraestrutura de transporte, em particular no Centro-Oeste, Norte e Sudeste, agravando o desgaste das rodovias. Sempre há tempo de corrigir os erros acelerando as concessões, mas paga-se um preço pelo atraso.

A pesquisa da CNT contou 2.648 pontos críticos nas rodovias — queda de barreiras, pontes caídas ou estreitas, buracos etc. No último feriado de fim de ano, caiu o número de acidentes graves e de feridos. Ainda assim, houve 46 mortos e 560 feridos, entre 30 de dezembro de 2022 e 1º de janeiro deste ano. A Polícia Rodoviária Federal tem de no mínimo manter o padrão de fiscalização do ano passado para não permitir que os acidentes aumentem. Se houvesse mais rodovias privadas, seria menor o risco de pegar a estrada nestas festas.

Editorial O Globo