Mulher com deficiência decide contratar profissional para sua primeira experiência sexual aos 43 anos

Enquanto estava em isolamento em sua casa, na Austrália, devido à pandemia de covid-19, Melanie fez uma promessa a si mesma: assim que tivesse permissão para sair novamente, ela contrataria um profissional do sexo, faria sexo pela primeira vez e acabaria com as ansiedades que havia desenvolvido em torno do amor e da intimidade como uma pessoa com deficiência.

A sugestão havia partido da assistente social que auxilia Melanie. Enquanto se isolavam juntas, Tracey (nome fictício) fez uma massagem em Melanie.

Ninguém havia tocado em Melanie antes de forma não médica e, aos 43 anos, ela percebeu que queria mais. Tracey lhe revelou que já havia sido prostituta e pensou que pagar por sexo poderia ser uma opção para Melanie.

“Abriu meus olhos para o fato de que talvez eu pudesse experimentar isso”, diz Melanie à BBC.

Agência de acompanhantes

Melanie encontrou uma agência de acompanhantes online, na qual um perfil de um homem chamado Chayse chamou sua atenção.

Ela marcou um horário e foi até o apartamento dele para a primeira sessão.

Do ponto de vista legal, não havia problema. No estado da Austrália Ocidental, onde Melanie vive, embora seja ilegal realizar trabalho sexual nas ruas ou administrar um bordel, o ato de prostituição não é contra a lei e as agências de acompanhantes são legais.

No Brasil, a prostituição é uma ocupação profissional reconhecida pelo Ministério do Trabalho desde 2022, enquanto praticada por adultos.

Antes de contratar Chayse, Melanie não tinha ideia de como seu corpo reagiria quando tocado intimamente, se ela seria capaz de ficar em uma posição favorável ou se o cansaço impediria qualquer prazer.

“Essa foi a razão pela qual contratei Chayse”, diz. “Não queria ir para casa com um cara de um bar e descobrir essas coisas e ficar desajeitada, vulnerável e insegura.”

Chayse, que já trabalhou com pessoas que sofreram traumas, diz que “criar um espaço seguro e acolhedor onde ela está no controle” é sua principal prioridade.

“Sabia que, ao contratar Chayse e pagar por um serviço, estava no controle. Sabia que se Chayse me tratasse de maneira diferente ou fizesse algo que eu não gostasse, ele pararia.”

Melanie disse que se isso acontecesse, não o contrataria novamente.

Chayse de costas para a câmera e Melanie — Foto: Melanie/Via BBC

Chayse de costas para a câmera e Melanie — Foto: Melanie/Via BBC

História

Melanie usa cadeira de rodas desde os três anos. Ela foi diagnosticada com inflamação da medula espinhal — uma condição conhecida como mielite transversa. A doença a deixou com paralisia nas pernas e movimento limitado nos braços. Na vida adulta, ela tem auxiliares para ajudá-las nas tarefas diárias.

Melanie morou e trabalhou no Japão. Atualmente, é editora de vídeo.

Ela diz que nunca teve um relacionamento. “Deixei a vida me levar, nunca busquei por isso”, diz.

Namorar e se abrir para os outros pode parecer intimidante, e o mundo nem sempre reconhece as pessoas com deficiência como seres sexuais.

Aos 43 anos, Melanie decidiu contratar um garoto de programa e experimentar sexo pela primeira vez — Foto: Melanie/Via BBC

Aos 43 anos, Melanie decidiu contratar um garoto de programa e experimentar sexo pela primeira vez — Foto: Melanie/Via BBC

Informações preliminares

Acontece que Melanie descobriu que poderia se divertir bastante com Chayse e não precisava se limitar.

Também se deu conta de que suas pernas podem ser imprevisíveis e “arremessá-la da cama”. Por isso, muitas vezes, precisa de uma sessão de fisioterapia depois.

“Descobri que minhas pernas precisam ser presas à cama de antemão e então não há preocupação”, diz ela.

“Foi a primeira vez que fiquei nua na frente de um homem, fora de um hospital”, diz ela.

Esses recentes encontros íntimos deram a Melanie maior poder em todos os aspectos de sua vida.

Custo da experiência

Mas tudo isso tem um custo financeiro.

“Está na casa dos milhares”, diz Chayse ironicamente sobre seu preço de 48 horas. A taxa que cobra por hora é de cerca de 400 dólares australianos (R$ 1,4 mil).

Justificando o custo, ele diz: “O que muita gente não entende é que quando você está saindo com alguém por 48 horas, por mais gratificante que seja, você não está fazendo mais nada que gostaria de fazer na vida.”

Apoio para novos encontros

Melanie e Chayse estão se encontrando desde janeiro, mas não se trata apenas de uma solução rápida e sexo.

Além de manter relações sexuais com Melanie, Chayse também tem conversado com um coach de namoro para ver como ele pode ajudar Melanie a navegar nessa seara e ajudá-la a construir conexões românticas com outras pessoas.

“Estou procurando um substituto para Chayse. Alguém que me ame e ame o que eu gosto e faça tudo de graça”, diz ela. “Nunca pensei que entraria em aplicativos de namoro e conversaria com homens online e agora estou fazendo isso praticamente diariamente. Meu único arrependimento é não ter feito isso antes.”

Para Melanie, a experiência é mais do que apenas liberação sexual. Ela acredita que os governos devem pagar e dar suporte a pessoas com deficiência no acesso a serviços sexuais.

“Minha confiança aumentou muito, estou mais feliz do que nunca e essa experiência de mudança de vida não tem preço.”

fonte: BBC